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Dê um descanso para seus olhos!

O incômodo de ter de afastar a bula de remédio com as mãos por não conseguir enxergar as letras miúdas era um problema que só aparecia depois dos 40 anos. Agora, a vista cansada está se manifestando cada vez mais cedo. Veja como fugir desse tipo de problema

Por Fabiana Gonçalves

Cada vez mais brasileiros acessam a internet pelo celular, smartphone, iphone, tablet, netbook ou palmtop. Não é à toa que um levantamento feito pela Associação Brasileira de Telecomunicações revela que os acessos à banda larga móvel no País saltaram de 23,6 milhões de conexões para 47,2 milhões em 12 meses.

E maior ainda é o número de pessoas que se queixam de presbiopia, a chamada vista cansada. Para os médicos, o principal motivo é o tamanho das telas desses pequenos computadores portáteis que faz as pessoas aproximarem mais os equipamentos dos olhos do que costumam fazer com textos impressos. Resultado: exigem um esforço extra do cristalino que começa a falhar. “Com a vida moderna e o uso frequente de aparelhos como computador, tablet, smartphones, ficamos muito tempo focados em imagens próximas. Isto combinado à iluminação inadequada faz com que os sintomas sejam mais facilmente notados pela população em geral”, alerta o oftalmologista Flávio Yamashiro, do Hospital de Olhos Paulista, (SP).

A presbiopia, palavra que vem do grego “olho envelhecendo”, é a degeneração da visão de curto alcance que acontece naturalmente com a idade. O motivo é a perda da elasticidade na lente do olho, o cristalino, o que dificulta focar em objetos próximos. Esta lente precisa mudar de comprimento e de formato toda vez que o olho mira em algo diferente. E é esta flexibilidade que se perde com o tempo. Para o oftalmologista Waldir Portellinha (SP), não existe qualquer relação entre o uso de aparelhos móveis com a presbiopia. “A presbiopia é a diminuição da acomodação dos olhos e ocorre normalmente com todos os indivíduos a partir de 40 anos. Embora ainda não exista uma teoria bem definida, podemos dizer que a diminuição da acomodação pode ocorrer por causa da alteração da rigidez do cristalino e a deficiência do músculo ciliar dos olhos”, considera.

Segundo especialistas, de fato, esta condição afeta nada menos do que 80% das pessoas com mais de 42 anos e 99% com mais de 51 anos. Há quem sustente, no entanto, que a anomalia tem começado cada vez mais cedo. Afinal de contas, muitos reclamam da vista cansada aos 35 anos, época em que a presbiopia não deveria aparecer.

Para se entender o mecanismo de formação da presbiopia é preciso relembrar o funcionamento ocular. As imagens que entram nos olhos pela pupila são focadas pela córnea e pelo cristalino. “Em conjunto, essas lentes projetam as imagens no centro da retina, no fundo do olho, para que sejam captadas pelos nervos e levadas ao cérebro para serem reconhecidas”, explica o Dr. Flávio Yamashiro. “Em um jovem, a cada olhar os músculos oculares fazem o cristalino se acomodar de maneira perfeita, projetando as imagens no centro da retina. À medida que as pessoas envelhecem, porém, os músculos vão enfraquecendo e isso se altera. O cristalino vai perdendo a capacidade de projetar as imagens no centro da retina, elas são captadas deformadas pelos nervos e o cérebro as identifica embaçadas”, define.

Apesar de afetar a população com mais de 40 anos, esta é uma alteração desconhecida. Só para ter uma ideia, no Brasil 50 milhões de pessoas têm presbiopia, mas 58% não sabem que são portadoras e convivem com dificuldades corriqueiras no dia-a-dia. “Geralmente ela se desenvolve quando as pessoas precisam ajustar o foco de imagens, textos, rótulos, bulas de remédios para além do campo de visão próximo em uma distância em torno de 33centímetros”, diz o Dr. Yamashiro.

Sintomas clássicos da presbiopia

-Dificuldade para ler bulas de remédio, rótulos de produtos, livros, jornais e revistas;

-Problemas para aplicar maquiagem em si mesma, por não enxergar os detalhes;

-Dificuldade para realizar trabalhos manuais ou praticar esportes;

-Dificuldade de enxergar os textos no computador e mais ainda em internet móvel.

-No caso dos míopes (pessoas que sentem dificuldade de enxergar a longa distância) estes sintomas só aparecem quando a presbiopia supera a miopia.

Como conviver com o problema

Mesmo sendo um assunto controverso, hoje não é possível afirmar que uma cirurgia pode corrigir o problema. “Realmente é um processo que não há cura, pois faz parte do fenômeno do envelhecimento natural. É como querer retardar a ação do tempo sobre nossas rugas, cabelos brancos”, afirma o Dr. Yamashiro. A correção da presbiopia pode ser feita com óculos ou lentes de contato corretivas monofocais para quem não tem outro problema de refração e multifocais para quem tem miopia, hipermetropia ou astigmatismo. “Ou seja, na medida da dificuldade de acomodação suficiente para compensar a perda de função do cristalino”, orienta Milton Ciongoli, oftalmologista do Hospital Beneficência Portuguesa (SP).

Não confunda presbiopia com astigmatismo

O astigmatismo é uma alteração de curvatura da córnea (mais comum) e ou retina (mais raro), onde ocorre difração (distorção) dos raios de luz emitidos pelos objetos, o que faz com que a pessoa veja a imagem desfocada. “Ou seja, o paciente com astigmatismo sente dificuldade para enxergar de forma nítida em todas as distâncias, podendo apresentar dificuldade para ler textos e até confundir símbolos como as letras N e M, já quem tem presbiopia apresenta dificuldade para manter o foco somente para perto”, diferencia o optometrista José Manuel Luis, optometrista da Carl Zeiss Vision.

A prevenção está mais perto do que se imagina

Por mais contraditório que possa parecer, a prevenção da presbiopia pode estar exatamente no hábito da leitura. “Um fato bem curioso é que o fenômeno tem aparecido mais cedo, justamente em populações menos favorecidas em relação ao hábito de leitura”, considera o médico Flávio Yamashiro. “A leitura e as atividades manuais com distância adequadas favorecem uma maior tonificação da musculatura ciliar e elasticidade cristalineana para o controle focal”, afirma. “Assim, notamos que pessoas com hábito regular de leitura e indivíduos com atividades mais intensas para perto como digitadores, redatores, costureiras têm tido os sintomas mais próximo aos 45 anos do que aos 40”, afirma. Logo, ao mesmo tempo em que o esforço para perto é cansativo para os olhos, acaba sendo benéfico em relação a retardar os sintomas iniciais da chamada vista cansada. “Sem contar que a ergonomia na posição da leitura, ou seja, com medidas adequadas de postura e iluminação na hora da leitura também ajudam na prevenção ou no retardamento do problema”, orienta o oftalmologista Milton Ciongoli, do Hospital Beneficência Portuguesa (SP).

Exercitando a visão

O professor israelense Uri Polat, especialista em doenças visuais da Universidade de Tel Aviv, conduziu um estudo entre 2010 e 2011 e publicado na revista Scientific Reports, com 30 voluntários com idade média entre 40 a 60 anos, que sofriam de presbiopia. Os voluntários se submeteram ao que chamaram de treinamento perceptivo. Por três meses, os participantes realizaram exercícios visuais específicos pelo menos três vezes por semana, por 30 minutos em cada uma das sessões.

Os exercícios consistiam em olhar para a tela de um computador e perceber o momento em que apareciam os chamados “padrões Gabor”, pequenos desenhos quadrados, em preto e branco, considerados básicos para o sistema visual. Os participantes tinham que olhar fixamente para a tela e discernir o momento em que um desses padrões — que simulam a sensação de profundidade através do contraste entre o preto e o branco — aparecia. Com o tempo, os exercícios se tornavam mais complexos, com diversos padrões aparecendo simultaneamente, sempre por frações de segundo. De acordo com os pesquisadores, o esforço visual para a percepção dos desenhos estimula o córtex visual, a área do cérebro especializada no processamento de imagens. Com o tempo, o cérebro aprende a focar nos padrões com mais clareza e rapidez.

Ao final de três meses de trabalho, Polat comparou a visão dos participantes com a de sete jovens com visão perfeita e três adultos com presbiopia que não praticaram os exercícios. Os resultados foram surpreendentes: todos os 30 voluntários passaram a ler de perto perfeitamente, sem a ajuda de óculos bifocais, alguns deles na mesma rapidez dos jovens. Os três adultos que não se exercitaram, por sua vez, apresentaram piora na visão de curto alcance.

 

Leia essa e outras matérias na Plástica & Beleza n° 128.